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O melhor do amor

Será que precisamos de muito?

Há quem diga que o melhor do amor são as grandes surpresas, as reconciliações depois de brigas duras, as declarações de amor profundas e as emoções avassaladoras.

Não sei. Quando se fala em paixão, até acho que essa dinâmica pode fazer algum sentido… Excessos, sustos, pancadas, hematomas na alma, curas efusivas.

Mas chega uma hora em que essas turbulências da paixão nos cansam e o que queremos mesmo é o aconchego, a cumplicidade, o olhar sereno e a solidez da certeza.

A isso, acredito que se denomina amor.

E quando se fala de amor, eu ainda acho que seu melhor está espalhado no dia a dia em formato de bobagens. Coisas pequenas às quais, por vezes, nem damos valor. Mas coisas que, se prestarmos atenção, acabam por ser algumas das maiores delícias da vida.

Ainda acho que bom mesmo é chegar no banheiro e encontrar sua escova de dente já com pasta.

(e é colocar pasta de dente na escova do outro na manhã seguinte para agradecer, sem precisar dizer nada)

Bom mesmo é gritar do chuveiro para saber se o outro quer entrar direto para não ter que temperar a água outra vez.

(e também é bom criticar a temperatura do banho alheio, às vezes)

Bom mesmo é ajudar o outro a procurar um pé de meia perdido naquele quarto que parece o Triângulo das Bermudas.

(e acabar achando um par de havaianas que você sequer lembrava que tinha, embaixo da cama)

Bom mesmo é ter alguém que saiba, sem titubear, se seu café da manhã é com café, com leite ou com café com leite.

(e é saber através do humor do outro quantas fatias de pão ele comerá nessa manhã)

Bom mesmo é ter alguém que ache que tem passe livre na sua bolsa e que jogue carteira, celular, cobras e lagartos dentro dela sem pedir.

(e poder resmungar que a bolsa só está pesada por causa das coisas do outro- mesmo que seja uma mentira deslavada)

Bom mesmo é guardar duas entradas de cinema no bolsinho lateral dessa bolsa cheia.

(e na hora da entrada poder falar “ficaram comigo???” )

Bom mesmo é falar daquela “sua camiseta bege feia pra caramba”.

(e tentar não ficar com muita raiva da crítica que virá em contrapartida)

Bom mesmo é reclamar que o outro ronca, quando na verdade isso nem incomoda.

(e ouvi-lo afirmar categoricamente que nunca roncou na vida)

Bom mesmo é ficar com o braço formigando por causa de um abraço desajeitado no meio da noite.

(e dar só uma viradinha de leve, com muito cuidado, para o outro não te “desabraçar”)

Bom mesmo é acabar de se arrumar com pressa por saber que o outro já está te esperando pra sair há 15 longos minutos

(e mesmo assim demorar horrores e ouvir todo aquele tradicional mimimi sobre horários e compromissos, sem nem tentar rebater)

Bom mesmo é ouvir “lembrou de tomar seu remédio”?

(e ligar da farmácia para saber se o outro precisa de alguma coisa)

Bom mesmo é abrir sua gaveta e encontrar uma peça de roupa do outro perdida por lá.

(e cheirá-la antes de devolver- se é que vai haver devolução)

Bom mesmo é perder o ticket do estacionamento

(e “ficou com você!”; “imagina, nem encostei nele!”; “claro que ficou, tá maluco…”)

Bom mesmo é confundir as toalhas de banho

(e, no fim das contas, não faz diferença nenhuma)

Bom mesmo é rir de piada interna

(e não adianta tentar explicar para um terceiro, a graça também é interna)

Bom mesmo é andar de mãos dadas

(e, nos dias frios, o da mão quente aguentar do da mão gelada, e nos dias quentes, o da mão gelada aturar a mão suada do da mão quente, com prazer)

Bom mesmo é beijo na testa

(e não existe beijo na testa que não seja seguido por sorriso sincero)

Bom mesmo é desvendar quem se ama com o olhar

(e não precisar nada além de um olhar de volta para que ambos se sintam abraçados)

Bom mesmo é ter um daqueles amores que não precisa de espetáculo pirotécnico para fazer sentido.

É saber reconhecer a felicidade na miudagem, é saber se dar diariamente e saber valorizar coisas cujo valor é muito grande, mas que cabem nos gestos pequenos, que preenchem a alma com mais eficácia do que muita coisa grandiosa por aí.

Bom mesmo é saber reconhecer que o melhor do amor está aí, todo dia, e saber ser grato à vida e a quem se ama por tanta sorte.

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Por Ruth Manus em 13 agosto 2014 | 13:00.

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